Terá Breaking Bad atingido a perfeição?

 

Sim, sem dúvida alguma. Já vi o episódio 3 vezes, para ver se não estava a exagerar, mas em vez de encontrar defeitos foi exactamente o contrário encontrei mais coisas para elogiar, pormenores que me tinham escapado na primeira visualização (até porque vi em directo em inglês). Também fui ler várias reviews e todos concordam, Breaking Bad teve um episódio perfeito, o que está ao alcance de poucos, muito poucos, no que diz respeito a televisão digo sem qualquer dúvida este é o melhor episódio que já assisti na vida e o único que diria que foi totalmente perfeito. Breaking Bad aumentou tanto a fasquia que as comparações nem deveriam ser com as séries, mas sim com os grandes monstros aclamados do cinema, onde Breaking Bad ainda não chegou (até porque a série ainda não terminou), mas que neste episódio em particular não perde para ninguém.

 

E dito isso, a pergunta que fica é: “Será que a série fica por aqui?”. Faltam dois episódios para o final e a série em momento algum mostrou não ter folgo para o que criou, resta apreciar o que foi feito e esperar pelo final desta magnifica obra. Abaixo uma longa review sobre a maior obra-prima já feita em televisão, o episódio Ozymandias. Perfeição define o que Breaking Bad fez esta semana.

 

 

 

O episódio começa por recuar no tempo, voltando ao momento em que Walt e Jesse começaram a parceria, também momentos antes de onde a série começou o seu episódio piloto. Nesse momento dá para reparar em vários pormenores interessantes, principalmente nas diferenças entre o Walt do passado e o do presente, a série faz questão de relembrar o espectador desse Walt mais calmo, mais gentil, mais humano, para mais à frente no episódio mostrar o outro Walt, o Walt que foi consumido pelo seu alter-ego Heisenberg. Mas o flashback também serviu para mostrar a relação dele com os dois personagens mais importantes para ele, o Jesse e a Skyler. De modo geral o flashback foi um toque de génio para relembrar a enorme diferença entre os personagens no início da série e os personagens no momento actual da história. Temos de nos lembrar do simpático professor de físico-química para fazer o contraste com o actual monstro que a série construiu.

 

Mas a melhor parte dessa fase inicial ainda estava por vir, aquela mudança lenta apagando o passado e colocando o presente ao som dos tiros, com a série, mais uma vez, fazendo questão de referenciar essa ironia, fazendo do local onde tudo começou o local onde tudo também acabou. Não que a série termine realmente ali, mas sim simbolizando o contraste de onde o Walt decidiu seguir o caminho da droga para ajudar a família e o momento em que a família (no caso o Hank) começa a desmoronar por causa da sua decisão. Na volta ao presente o tiroteio já terminou (o que ainda dá mais valor à ideia de o último episódio deveria ter terminado sem ver o tiroteio em si), o Gomez está morto, o Hank alvejado e a situação está totalmente a favor dos nazis e com todos os outros envolvidos perdendo feio.

 

 

Segue-se a morte do Hank, no episódio anterior já tinha ficado evidente, por aquela magnífica conversa de telefone entre Hank e Marie, que esse seria o momento da despedida do Hank não só para a sua mulher, mas para a série. Mas uma coisa é ter uma ideia que irá acontecer e outra coisa é acontecer de verdade, impactante sem dúvida alguma. Mas antes do tiro em si, que despedida do Hank, não se rebaixou e a sua frase “Walt, és a pessoa mais inteligente que conheci, mas és tão burro para ver que ele já tomou a sua decisão há 10 minutos atrás” resume tudo, independentemente do que o Walt fizesse, a decisão estava tomada e todos sabiam que era impossível o Hank sair dali vivo, incluindo o próprio e dessa forma ele quis morrer com dignidade, em vez de implorar pela sua vida, já sabendo que iria morrer à mesma. Um final digno do Hank.

 

"My name is ASAC Schrader, and you can go f--- yourself."

 

O que é irónico na morte do Hank é que tecnicamente com a sua morte todos os “inimigos” do Walt estariam mortos, mas é exactamente com a morte do Hank que toda a história muda de figura, com o jogo pela primeira vez na série a se virar contra o todo poderoso Heisenberg, mesmo quando o Hank descobriu o Walt ainda tinha tudo a favor. Com a morte do Hank o Walt caí finalmente, tanto fisicamente como psicologicamente, ele sabe que a partir daquele momento todo o seu mundo desabou e por mais que tente manipular o que restou é impossível mudar esse facto e novamente a frase do Hank se faz sentir, o Walt que durante tantos episódios esteve á frente de tudo e todos não conseguiu ver que os nazis lhe iriam roubar. Ele entregou o ouro aos bandidos e totalmente de graça. Naquele momento o Walt morreu, o que se levantou não foi o Walt, mas sim o Heisenberg.

 

 

Mas há algo a destacar ainda por parte dos nazis, provavelmente numa história de menor valor o que mais provavelmente aconteceria eram eles roubarem o dinheiro e no exacto momento em que os capangas do Jack colocassem os barris na carrinha ele matasse todos eles e ficasse com o dinheiro só para ele. Não estou a dizer que gente gananciosa e sem escrúpulos não exista na vida real, mas acho que virou moda, para tentar chocar a audiência, fazer esses bandidos sem escrúpulos, menosprezando não só a morte, como a própria inteligência desses mesmos bandidos. Por isso gostei de ver o Jack a entregar um barril ao Walt, afinal com tanto dinheiro não é preciso ser tão ganancioso e digamos que também faz com que não se tenha de preocupar com o Walt indo atrás de si por vingança e por consequência não ter me pensar em se deve ou não matar o Walt naquele local. E aquele aperto de mão foi um dos pontos fortes do episódio, mostrando que apesar de perder o dinheiro, o Walt percebe que a culpa é totalmente dele de toda a situação chegar a esse ponto, e novamente repito, neste momento quem manda já é o alter-ego do Walt.

 

 

Mas sem dúvida alguma a maior surpresa do episódio foi ver Walt mandando matar Jesse, quando naquele momento já não servia de nada além de provar um ponto que só prejudicava todo o mundo. Walt desabou completamente com a morte do Hank e por ironia ele não culpa os nazis por isso, não, o Walt virasse para quem sempre esteve com ele o tempo todo e que o apunhalou nas costas (do seu ponto de vista) há uns episódios atrás. Tudo já estava decidido, o Jesse era apenas mais um peão, mas Walt culpa Jesse por tudo, quando a culpa deveria ser toda do próprio Walt. E por isso, mais uma vez, Heisenberg toma o poder e de uma forma crua e sem escrúpulos manda matar Jesse ali mesmo à sua frente, quando há dois episódios atrás ele dizia que acontecesse o que acontecesse Jesse era fora dos limites, que no episódio anterior queria ver Jesse morto, mas não de uma forma cruel e nunca há sua frente, agora ele já não liga, isto porque naquele momento ele é 100% Heisenberg. E se dúvidas existiam foram respondidas com uma das grandes cenas do episódio, onde Walt conta a Jesse que foi ele que matou a Jane, Walt não quer ver Jesse apenas morto, Walt quer que ele sofra antes mesmo de morrer.

 

"I watched Jane die. I was there. And I watched her die. I watched her overdose and choke to death. I could have saved her. But I didn't."

 

O que é interessante na parte do Walt ficar sem gasolina é que isso tinha sido introduzido na altura em que se descobre que o Jesse está debaixo do carro, nessa altura dá para ver gasolina a pingar, um pequeno pormenor mas que faz uma diferença gigantesca. Outro dos grandes pontos fortes de Breaking Bad é a trilha sonora da série, sempre com as escolhas musicais perfeitas para cada situação, como no caso em que o Walt tem de rolar o barril pelo deserto. Deserto esse que volta a ser uma figura importante da história e isso vê-se claramente na altura em que a câmara se afasta para mostrar a imensidão do deserto comparado com um pequeno Walter White e os seus 11 milhões.

 

 

Jesse não podia morrer, pelo menos não no mesmo episódio que o Hank, mas confesso que me assustei quando o Walt manda matá-lo, mas o Todd mais uma vez mostra o respeito/interesse que tem pela dupla. Isso foi um dos grandes factores para o Jack não ter roubado todo o dinheiro do Walter e vê-se também na maneira como Todd protege Jesse, tentando arranjar desculpas para o manter vivo. Todd não se importava com Hank, mas dá para ver que ele foi pedir desculpas a Walt pelo que aconteceu. E é por esse interesse que o Todd nutre pela dupla que o desfecho do Jesse neste episódio faz todo o sentido. Com Jesse se tornando um escravo pessoal do Todd. E já agora o Todd tem sido um dos grandes destaques desta 5ª temporada e se já tinha mostrado talento em Friday Night Lights, agora está-se a mostrar ao mundo um actor de enorme qualidade e a principio nesses dois últimos episódios ainda terá bastante destaque.

 

 

Na semana passada foi o Hank a cantar vitória antes da festa, nesta semana foi a vez da Marie, que logo foi contar à Skylar sobre o Walt ter sido apanhado em flagrante pelo Hank. E da mesma maneira que Walt ao se aperceber da situação se entregou, também a Skylar se rendeu ao se perceber que perdeu e nesse paralelo é bem interessante de notar os caracteres dos dois personagens, onde a família é o limite (com a grande diferença que a Skylar não tem um alter-ego). E o que dizer da interpretação do autor que faz de Flyn? Genial, com todos os maneirismos do personagem a serem interpretados se forma brilhante e colocando pela primeira vez na série o filho a par de todo o negocio ilegal do pai. Confesso que esperava uma reacção diferente, por tudo o que o personagem tinha mostrado até agora, esperava que ele idolatrasse o pai. Mas claro isso teria de acontecer noutras circunstâncias, se o pai foi a pessoa a lhe contar o que tinha acontecido, ele mais que provavelmente iria-o idolatrar, mas foi a mãe e principalmente a tia que tiveram esse papel. E dessa maneira a reacção sua reacção não podia ser outra do que ódio ao pai, e claro há mãe, afinal ela sabia e não disse nada.

 

 

O confronto entre Walt, Skylar e Flyn em casa foi mais um dos pontos altos do episódio, um confronto que começa pela confirmação da morte do Hank e esse é o momento em que o pouco que restava de união entre a família desaba. Acabam as possibilidades do filho escolher o lado do pai, Skylar apenas quer proteger a família do monstro que Walt se tornou e Walt chega ao fundo do poço, um poço bastante fundo, já que as únicas pessoas que lhe restavam estão agora contra ele. Mais um bom angulo de câmara quando a Skylar se aproxima da cozinha, ficou a duvida se ela escolheria o telefone ou a solução mais brusca, a faca, acabou escolhendo a segunda opção e isso levou a mais um momento de tensão, onde realmente pensei que ou Flyn ou Skylar pudessem sair com uma facada daquela situação e se o Walt já está numa situação extrema, o que seria se tivesse o peso na consciência de ter matado o filho ou a mulher? Seria o afundar completo daquele simpático professor de físico-química do início da série.

 

"I need the police. My dad -- he pulled a knife on my mom. He attacked her. He's dangerous. I think he might have killed somebody."

 

 

O Walt levar a Holly também representa exactamente isso, a tentativa de ele se agarrar a algo para não se esquecer dos seus princípios, para ainda poder arranjar desculpas. Desculpas e mais desculpas. Vale lembrar que a série não se esqueceu da bebé e mais uma vez a série relembra a diferença entre o início e o momento actual da série, fazendo com que ele simpático homem passasse do momento que escolhe o nome da filha para o momento em que a rapta. Até a bebé esteve impecável neste episódio, com as caras certas nos momentos certos, aquele “mamã, mamã” foi mais que sentido pelo Walter, tanto que é isso que leva ao momento do telefonema dele para Skylar.

 

 

E mais uma vez que actuação fabulosa, numa cena falada ao telefone, na semana passada com o Jesse, esta semana com Skylar, Walt solta tudo, fala de tudo e todos e já não pensa nas consequências. Essa conversa com a mudança na voz de Walt, inicialmente calmo, mas depois que a Skylar confirma (erradamente) que a policia não está a ouvir ele muda bruscamente de tom, acusando a Skylar de tudo, culpando a Skylar de tudo. Novamente, desculpas e mais desculpas, Walt culpa tudo e todos menos ele, para ele todos são culpados da situação chegar àquele ponto, menos ele próprio. Afinal o seu sonho sempre foi dar uma boa vida para a família e a culpa de não o ter conseguido não é dele, mas sim dos outros que se colocaram no seu caminho, a culpa é de todas as variáveis que ele se esqueceu de pensar antecipadamente.

 

"I told you Skyler, I warned you for a solid year: You cross me, and there will be consequences."

 

Walter White chega ao fundo do poço e isso vê-se claramente na sua frase: “Marca as minhas palavras Skylar, respeite a linha, se não acabarás igual ao Hank”, este é o segundo momento no episódio que se vê Heisenberg em acção e também o momento decisivo, porque se ao longo do episódio e mesmo depois daquele aperto de mão o Walter ainda balanceou entre Walt e Heisenberg, neste momento o Heisenberg tomou de vez o controlo e é para ficar, ameaçar a família era a última coisa que faltava para chegar ao limite e aconteceu. Também de referir que o Walt, ao contrário do que fez inicialmente no encontro entre ele, Skylar e Flyn anteriormente no episódio, na conversa por telefone ele não se preocupa em se defender na morte de Hank, pelo contrário ele praticamente afirma que foi ele que matou Hank e que ameaçou o resto da família em fazer o mesmo.

 

 

O único lado humano que ainda restou no Walt acaba sendo o de entregar a Holly e mais uma cena ao nível da perfeição do episódio, reacção perfeita. E é dessa forma que esta fase da história termina, com um Walter no fundo do poço, fugindo sozinho e para parte incerta. O irónico do final é que pela primeira vez em Breaking Bad alguém realmente utiliza o contacto do Saul para fugir, mas ao contrário do significado inicial o Walt não foge para começar uma nova vida, ele apenas foge, para poder planear seja o que for que passe pela sua cabeça. E dois últimos pormenores interessantes, não se chega a ver o homem que conduz, o carro, esse personagem sombra é importante, mas mais pelo seu significado do que pela sua presença e caso aparecesse seria apenas um capricho. O segundo pormenor é aquele cão que aparece no final, nada de mais, apenas mais um pormenor sem importância, mas que me agradou pela simplicidade da situação.

 

 

Episódio perfeito e que vai perdurar para a história como um marco importante da televisão, agora resta esperar pelos dois últimos episódios da série e apreciar esse provável enorme desfecho, porque o mais importante já foi feito, Vince Gilligan tornou um simples professor num imperador da droga, transformou um homem de família num monstro capaz de raptar a sua própria filha e deu-lhe uma vida bem-sucedida apenas para lhe tirar tudo, incluindo a sua própria família.

 

PS: Para quem será a ricina? Essa é a pergunta que não quer calar.

 

 

O título do episódio é também um título de um poema de Percy Bysshe Shelley, onde é retratado o inevitável declínio de lideres e dos seus impérios (outrora enormes). Mais um pormenor para Breaking Bad mostrar a perfeição deste episódio.

“I met a traveller from an antique land
Who said: Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them, on the sand,
Half sunk, a shattered visage lies, whose frown,
And wrinkled lip, and sneer of cold command,
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamped on these lifeless things,
The hand that mocked them and the heart that fed:
And on the pedestal these words appear:
“My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!”
Nothing beside remains. Round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare
The lone and level sands stretch far away.”

 

publicado por Dark-Fenix às 22:48